A evolução da inteligência artificial ampliou as possibilidades de comunicação, produtividade e inovação, mas também trouxe novos desafios para a segurança digital. Com ferramentas capazes de reproduzir vozes, gerar imagens e simular conversas, criminosos encontram maneiras cada vez mais sofisticadas de enganar pessoas e empresas.
Esse cenário foi discutido durante uma edição do PodRondônia, produção do Grupo Amazun, apresentada por Inácio Rocha, que recebeu o empresário e especialista em segurança da informação Clóvis Aguiar.
A entrevista, realizada no dia 28 de outubro de 2026, em Porto Velho, abordou a evolução dos golpes virtuais, as estratégias de manipulação utilizadas por criminosos e os cuidados necessários para evitar prejuízos.
Formado em Sistemas de Informação, com especialização em Computação Forense e Perícia Digital, Clóvis relatou possuir dez anos de experiência na área de tecnologia e atuar com soluções de segurança da informação, infraestrutura de TI e redes.
Ao longo do episódio, o especialista reforçou que a principal ferramenta de proteção não depende exclusivamente de programas ou equipamentos: começa pela capacidade de desconfiar, verificar e agir com cautela.
Roubo de identidade ganha novas formas com inteligência artificial
Um dos primeiros assuntos abordados foi a utilização da inteligência artificial para reproduzir características de pessoas reais.
Questionado sobre os golpes mais preocupantes, Clóvis destacou que o roubo de identidade é uma prática antiga que ganhou novas possibilidades com as tecnologias digitais.
"O principal golpe é um golpe antigo. Na verdade, ele só foi remodelado. É o roubo de identidade", explicou.
Segundo o especialista, recursos tecnológicos podem ser utilizados para criar gravações falsas e simular conversas utilizando características vocais de outras pessoas.
Essa possibilidade torna especialmente preocupantes as tentativas de fraude que envolvem familiares, amigos e conhecidos.
O criminoso pode utilizar informações obtidas na internet para criar uma situação convincente, buscando induzir a vítima a transferir dinheiro ou compartilhar dados.
O entrevistado ressaltou que a evolução dessas ferramentas exige uma mudança na maneira como as pessoas avaliam mensagens, áudios e vídeos recebidos.
Voz de familiar pedindo dinheiro? Desconfie antes de transferir
Durante a entrevista, Inácio Rocha apresentou uma situação que preocupa muitas famílias: receber uma ligação de alguém com voz semelhante à de um filho ou parente pedindo dinheiro urgentemente.
Clóvis destacou que a pressa e a pressão emocional são sinais importantes de alerta.
"Desconfia o número que ligou? Desconfia a forma que está falando o golpista", orientou.
O especialista explicou que criminosos frequentemente procuram criar situações de emergência para impedir que a vítima tenha tempo de verificar os fatos.
Entre os exemplos apresentados estão pedidos de dinheiro envolvendo supostos acidentes, ameaças e oportunidades que precisam ser aproveitadas imediatamente.
Para evitar prejuízos, Clóvis apresentou uma orientação simples:
"Desliga e liga para o número que você tem da pessoa salva na agenda."
A recomendação consiste em encerrar o contato suspeito e procurar o familiar por um canal independente, utilizando um telefone já conhecido.
O procedimento permite confirmar a informação antes de qualquer transferência financeira.
Exposição nas redes sociais facilita a atuação de criminosos
Outro ponto importante da conversa foi a quantidade de informações pessoais disponibilizadas diariamente nas redes sociais.
Clóvis chamou a atenção para publicações que revelam a rotina das pessoas, os locais frequentados e informações profissionais.
"Uma coisa é você postar o seu dia a dia, outra coisa é você postar suas coisas pessoais", afirmou.
Segundo ele, fotografias de crachás, documentos, certificados e assinaturas podem fornecer elementos utilizados em tentativas de fraude.
O especialista também destacou que publicações em tempo real podem revelar horários, deslocamentos e períodos em que uma residência está desocupada.
A preocupação não significa que as pessoas precisam abandonar as redes sociais, mas que devem avaliar quais informações estão tornando públicas.
Vídeos falsos também podem enganar o público
A possibilidade de criar imagens e vídeos sintéticos foi discutida durante a entrevista.
Inácio Rocha questionou se um vídeo mostrando uma pessoa conhecida ainda poderia ser considerado prova suficiente de que determinada declaração realmente aconteceu.
Clóvis explicou que o avanço da inteligência artificial exige maior cuidado na avaliação desse tipo de material.
Um vídeo pode ser autêntico, editado, manipulado ou inteiramente produzido por sistemas digitais. Por isso, sua confiabilidade depende da procedência, do contexto e, quando necessário, de análise técnica.
O convidado citou o uso de conteúdos manipulados no ambiente político e nas redes sociais, onde materiais produzidos com inteligência artificial podem circular rapidamente.
A discussão reforçou a importância da verificação jornalística e da responsabilidade no compartilhamento de informações.
Golpes pelo Pix e boletos falsos podem provocar grandes prejuízos
Os crimes financeiros também receberam destaque no programa.
Inácio Rocha relatou o caso de um familiar que teria perdido aproximadamente R$ 40 mil após uma negociação de veículo realizada por meio de uma plataforma digital.
Segundo o relato apresentado na entrevista, o dinheiro foi transferido para uma pessoa que não era a proprietária legítima do automóvel.
A situação abriu espaço para orientações sobre fraudes em transferências bancárias e a necessidade de agir rapidamente quando há suspeita de golpe.
Clóvis explicou que existem procedimentos bancários para contestar transações realizadas por meio do Pix, mas ressaltou que a recuperação dos valores depende de análise e das condições encontradas.
O especialista também alertou sobre boletos adulterados e códigos de pagamento substituídos.
Entre as recomendações estão conferir cuidadosamente o destinatário, verificar os dados exibidos pelo aplicativo bancário e evitar pagamentos feitos diretamente por links desconhecidos.
A conversa destacou ainda o risco de uma pessoa receber dinheiro supostamente por engano e ser pressionada a transferi-lo para uma conta diferente da original.
Nessas situações, a orientação é procurar os procedimentos oficiais de devolução disponibilizados pela instituição financeira.
Idosos precisam de orientação para reconhecer tentativas de fraude
A proteção de pessoas idosas foi outro tema importante da entrevista.
Inácio Rocha questionou como filhos e familiares podem ajudar pais e avós que possuem menos familiaridade com ferramentas digitais.
Clóvis destacou que a educação e o diálogo são fundamentais.
O especialista relatou situações vividas com seu próprio pai, de 73 anos, que também atua na área de tecnologia, mas que ocasionalmente recebe mensagens suspeitas.
Mesmo pessoas com experiência podem ser expostas a tentativas de fraude, especialmente quando os criminosos utilizam pressão psicológica e informações aparentemente confiáveis.
O entrevistado recomendou verificar remetentes, desconfiar de mensagens urgentes e conversar com familiares antes de realizar pagamentos desconhecidos.
Clóvis também comentou um projeto acadêmico voltado à proteção de idosos, com proposta de utilização de inteligência artificial para analisar mensagens suspeitas e identificar possíveis riscos.
A iniciativa foi apresentada como projeto em desenvolvimento, e não como solução já comprovada ou disponível ao público.
Inteligência artificial também pode ajudar na segurança
Apesar dos riscos, Clóvis ressaltou que a inteligência artificial não deve ser vista exclusivamente como uma ameaça.
Durante a entrevista, explicou que utiliza recursos tecnológicos para melhorar processos de atendimento e direcionar solicitações de suporte.
"Nós temos um filtro, ela vem como ferramenta, a gente usa como ferramenta", afirmou.
Segundo o especialista, a tecnologia pode contribuir para organizar demandas, identificar ocorrências e agilizar o encaminhamento de problemas para os profissionais responsáveis.
Também foram discutidas aplicações relacionadas à produção de conteúdo, automação de atividades e apoio às empresas.
A reflexão apresentada foi que os mesmos recursos que podem ser utilizados de maneira criminosa também oferecem benefícios quando empregados com responsabilidade.
Autenticação em múltiplos fatores reforça a proteção das contas
A segurança das redes sociais e dos aplicativos financeiros também entrou na pauta.
Clóvis recomendou a utilização de mecanismos adicionais de autenticação, especialmente em contas que armazenam informações pessoais ou permitem movimentações financeiras.
A autenticação em múltiplos fatores exige mais de uma forma de verificação para confirmar a identidade do usuário.
O recurso pode dificultar o acesso indevido mesmo quando uma senha é descoberta.
O especialista também discutiu cuidados relacionados ao uso de aparelhos celulares, aplicativos bancários e diferentes mecanismos de proteção digital.
A principal orientação foi não depender exclusivamente de uma única senha para proteger contas importantes.
Como agir depois de sofrer um golpe?
Durante a entrevista, Clóvis explicou que vítimas de fraudes precisam procurar os canais oficiais de atendimento e reunir informações sobre o ocorrido.
No caso de transferências pelo Pix, é importante comunicar imediatamente a instituição financeira e solicitar a avaliação dos mecanismos de contestação disponíveis.
Também é recomendável preservar comprovantes, mensagens, números utilizados pelos suspeitos e outros registros que possam auxiliar a apuração.
O registro de boletim de ocorrência é uma providência importante para documentar os fatos e permitir a investigação pelas autoridades.
A devolução de valores, entretanto, não é automática e depende das regras aplicáveis e das circunstâncias de cada transação.
Informação e prevenção são essenciais na era digital
A entrevista mostrou que a evolução tecnológica exige mudanças de comportamento.
A confiança em uma voz conhecida, em um vídeo aparentemente verdadeiro ou em uma mensagem com identidade visual semelhante à de uma instituição já não é suficiente para garantir autenticidade.
Para Clóvis Aguiar, a prevenção passa pela conscientização, pela adoção de boas práticas e pela verificação das informações antes de tomar decisões.
O debate também demonstrou que pessoas físicas, empresas e órgãos públicos precisam fortalecer seus cuidados com a segurança digital.
Em um ambiente em que a inteligência artificial pode tornar as fraudes mais convincentes, desconfiar de situações suspeitas e confirmar informações por canais independentes são atitudes fundamentais para reduzir os riscos.
O episódio do PodRondônia, com apresentação de Inácio Rocha e participação de Clóvis Aguiar, integra as produções do Grupo Amazun, com distribuição pelo canal Olá Rondônia, no YouTube, pelos portais de notícias e pelas emissoras parceiras.