Ciência, agricultura familiar e desenvolvimento regional
A produção de cacau em Rondônia apresenta oportunidades de desenvolvimento que vão além do cultivo e da comercialização das amêndoas. A valorização da origem, a qualidade do produto, a rastreabilidade e a utilização de pesquisas científicas estão entre os fatores que podem contribuir para ampliar a competitividade da cacauicultura rondoniense.
Esses temas foram abordados durante uma entrevista especial do RuralCast, podcast do Grupo Amazun, exibido pelo canal Olá Rondônia, no YouTube.
A conversa foi conduzida pelo professor Charles Carminati, diretamente da Universidade Federal de Rondônia (UNIR), campus de Cacoal, durante a cobertura especial do Agro&Cont 2026, evento que reúne debates sobre gestão, contabilidade, agronegócio e desenvolvimento econômico.
A convidada foi a mestranda Mileni Cassimiro, integrante da primeira turma do Programa de Pós-Graduação em Gestão de Agronegócios e Sustentabilidade (PPGAgro), que desenvolve uma pesquisa relacionada à produção de cacau no estado.
Durante o episódio, a pesquisadora explicou como a investigação acadêmica pode contribuir para compreender a realidade dos produtores rurais e identificar caminhos para fortalecer uma atividade econômica ligada à agricultura familiar.
Pesquisa começou na graduação e avançou para o mestrado
A trajetória acadêmica da pesquisadora com o cacau começou ainda durante seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC).
Na graduação, o estudo foi desenvolvido com base em dados secundários, utilizando informações disponíveis em bases oficiais para mapear a produção cacaueira em Rondônia.
Com o ingresso no mestrado, o projeto ganhou uma nova dimensão.
A proposta passou a incluir a coleta de dados diretamente nas propriedades rurais, permitindo uma aproximação com a realidade vivenciada pelos produtores.
Segundo Mileni, a investigação busca compreender aspectos da produção e reunir informações que possam contribuir, futuramente, para iniciativas de rastreabilidade do cacau.
A pesquisadora também destacou o potencial dessas informações para apoiar estratégias de valorização do produto e acesso a mercados com exigências específicas de origem e sustentabilidade.
Dados primários e secundários ajudam a compreender a realidade do campo
Um dos momentos da entrevista foi dedicado à explicação sobre a importância dos dados científicos.
Mileni destacou que pesquisas desenvolvidas com dados secundários utilizam informações anteriormente coletadas e disponibilizadas por instituições oficiais.
Entre os exemplos apresentados estão o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e plataformas públicas que reúnem informações sobre produção agrícola, pecuária, exportações e importações.
Essas informações permitem analisar a evolução da produção, identificar tendências e comparar resultados entre diferentes regiões.
Já a pesquisa com dados primários envolve a coleta direta de informações pelo pesquisador.
No caso da cacauicultura, isso significa visitar propriedades, conversar com agricultores e compreender aspectos que nem sempre aparecem nas estatísticas oficiais.
"A pesquisa com o dado primário traz uma realidade particular de cada região, de cada município, de cada produtor", explicou a mestranda.
Essa aproximação permite identificar dificuldades relacionadas à infraestrutura, às condições produtivas e às necessidades específicas dos agricultores.
Segundo ela, os resultados também podem contribuir para discussões sobre políticas públicas mais adequadas às diferentes realidades rurais.
Indicação geográfica valoriza o cacau produzido em Rondônia
Outro assunto de destaque foi a Indicação Geográfica (IG) Rondônia Cacau em Amêndoas.
Durante a entrevista, a pesquisadora explicou que a indicação geográfica representa um instrumento de valorização de produtos associados a determinadas origens e características regionais.
No caso do cacau rondoniense, o reconhecimento está relacionado à reputação e à identidade da produção de amêndoas do estado.
Mileni lembrou que o reconhecimento da indicação geográfica, na modalidade Indicação de Procedência, ocorreu em 2023, tornando-se um marco para a cacauicultura regional.
Segundo os participantes, um diferencial da indicação é sua abrangência territorial, contemplando os 52 municípios de Rondônia.
A importância desse reconhecimento está na possibilidade de fortalecer a identidade do produto e incentivar estratégias de diferenciação no mercado.
Entretanto, o reconhecimento da origem não substitui a necessidade de organização da cadeia produtiva, cumprimento das regras de uso da indicação e manutenção de padrões de qualidade.
Esses aspectos são importantes para transformar o reconhecimento territorial em oportunidades econômicas concretas.
Rastreabilidade pode abrir novas perspectivas comerciais
A rastreabilidade foi apresentada como um dos eixos mais relevantes para o futuro da produção de cacau em Rondônia.
De forma geral, o processo consiste na possibilidade de acompanhar e documentar as etapas relacionadas à origem, à produção, ao transporte e à comercialização de determinado produto.
No caso do cacau, isso pode envolver informações sobre a propriedade produtora, os lotes comercializados e os caminhos percorridos pelas amêndoas até chegarem à indústria ou ao consumidor.
A pesquisadora destacou que sistemas de rastreabilidade podem contribuir para garantir maior transparência comercial, identificar a procedência da produção e auxiliar no controle de qualidade.
Além disso, essas informações ganham importância diante das exigências de determinados mercados internacionais.
Durante a entrevista, Mileni citou as regras da União Europeia relacionadas à rastreabilidade e ao desmatamento, ressaltando que exigências ambientais e documentais representam desafios para os produtores que pretendem acessar esses mercados.
A rastreabilidade, portanto, deve ser compreendida não apenas como um procedimento técnico, mas como parte de um processo mais amplo de organização da cadeia produtiva.
Adaptação dos produtores exige conhecimento e planejamento
Apesar das oportunidades, a pesquisadora reconheceu que a implementação de mecanismos de rastreabilidade poderá exigir adaptações por parte dos agricultores.
A organização de registros, a documentação da produção e o atendimento às exigências comerciais podem representar dificuldades, especialmente para propriedades com menor estrutura administrativa.
Nesse cenário, pesquisas de campo se tornam importantes para identificar quais condições já existem e quais melhorias seriam necessárias.
A investigação desenvolvida no mestrado poderá contribuir para ampliar esse conhecimento, sem pressupor que todos os produtores possuam as mesmas necessidades.
A reflexão apresentada durante o podcast também evidencia a importância de integrar pesquisa, assistência técnica, gestão e capacitação rural.
Para que os benefícios da rastreabilidade sejam efetivamente alcançados, será necessário considerar os custos de implementação e as características econômicas e produtivas de cada propriedade.
Agricultura familiar ganha espaço nas pesquisas da UNIR
A relação entre a cacauicultura e a agricultura familiar também foi abordada durante o episódio.
Mileni explicou que sua pesquisa está vinculada à primeira linha de pesquisa do PPGAgro, voltada à agricultura familiar.
O programa de mestrado, sediado no campus da UNIR em Cacoal, desenvolve estudos relacionados à gestão do agronegócio e à sustentabilidade.
A pesquisadora destacou que o trabalho acadêmico pode contribuir para compreender atividades produtivas que possuem relevância econômica, ambiental e social para Rondônia.
O cacau foi apresentado como uma cultura com potencial para integrar desenvolvimento rural, valorização territorial e oportunidades de comercialização.
A produção científica, nesse contexto, pode ajudar a transformar informações sobre a realidade do campo em conhecimentos que apoiem decisões de produtores, instituições e formuladores de políticas públicas.
Mestrado transforma a visão sobre a pesquisa e o desenvolvimento
Ao ser questionada sobre a importância da pós-graduação, Mileni relatou que o ingresso no mestrado modificou sua maneira de compreender a pesquisa científica e suas responsabilidades.
"É uma responsabilidade muito grande você fazer uma pesquisa sobre algo", destacou.
Segundo a mestranda, o aprofundamento científico desperta o interesse em compreender as razões pelas quais determinadas atividades produtivas crescem, enfrentam dificuldades ou apresentam mudanças ao longo do tempo.
Mais do que cumprir etapas acadêmicas, o processo de investigação exige dedicação e compromisso com a qualidade das informações produzidas.
Ela ressaltou que compreender os problemas e as potencialidades das atividades econômicas pode contribuir para o desenvolvimento regional.
Pesquisadora incentiva acadêmicos a ingressarem na pós-graduação
Na parte final do episódio, Mileni deixou orientações para estudantes e profissionais interessados em ingressar em programas de mestrado.
Entre as recomendações apresentadas estão o acompanhamento dos editais, a preparação antecipada de projetos de pesquisa e a atualização do currículo Lattes.
A pesquisadora também sugeriu que os candidatos aproveitem trabalhos desenvolvidos durante a graduação, como TCCs e projetos científicos, para construir uma trajetória acadêmica.
Segundo ela, conhecer as linhas de pesquisa e os critérios estabelecidos nos processos seletivos é essencial para uma preparação adequada.
A mensagem reforçou que a qualificação científica pode ampliar oportunidades de atuação profissional e contribuir para a produção de conhecimento sobre os desafios econômicos e sociais do país.
RuralCast aproxima ciência, produtores e sociedade
A entrevista com Mileni Cassimiro integra a cobertura especial do RuralCast durante o Agro&Cont 2026, realizado na UNIR, em Cacoal.
O episódio destaca a importância de aproximar o conhecimento produzido nas universidades das necessidades enfrentadas pelos produtores rurais.
Ao abordar a cadeia produtiva do cacau, a indicação geográfica, a rastreabilidade e o papel das pesquisas de campo, a conversa amplia o debate sobre as oportunidades e os desafios da cacauicultura em Rondônia.
A principal reflexão é que o crescimento econômico do setor não depende apenas do aumento da produção, mas também da capacidade de gerar conhecimento, agregar valor, organizar os processos produtivos e atender às exigências dos mercados.
O desafio está em transformar a qualidade e a identidade do cacau rondoniense em oportunidades concretas de desenvolvimento para os produtores e suas comunidades.
A entrevista completa pode ser acompanhada no RuralCast, do Grupo Amazun, pelo canal Olá Rondônia, no YouTube.